sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Apostila machista de curso de medicina é filha do relativismo moral da esquerda

Tão grave quando o machismo é a linguagem e ilustrações da apostila que associam infantilidade e perversidade – mistura paradoxal cada vez mais comum, que resulta do relativismo moral da esquerda, responsável por abastardar todos os valores. 


JOSÉ MARIA E SILVA

A sociedade brasileira passa por um acelerado processo de putrefação moral, cujo último – e grave – sintoma é uma apostila para estudantes de medicina em que aparecem ilustrações vulgares e ofensivas à dignidade dos pacientes, no caso, mulheres. A denúncia foi feita por uma estudante do 8º semestre da Universidade Federal da Bahia, Heloísa Lopes Cohim Moreira, que mostrou em seu Facebook parte desse material. A apostila descreve doenças com linguagem infanto-juvenil e ilustrações de banheiro público. Numa delas, uma paciente aparece seminua e insinuante no leito da clínica, enquanto o médico, com jeito de moleque, tampa o nariz para o cheiro de “peixe podre” de sua vagina. Os dizeres da apostila são exatamente esses.

A advogada Marina Ganzarolli, doutoranda em sociologia e fundadora de uma rede feminista, compartilhou a denúncia do caso, com o seguinte comentário, parcialmente correto: “Esta é a forma como alunos de Medicina estudam casos clínicos de Ginecologia e Obstetrícia em um curso preparatório particular para a residência. É por estas e outras que não nos espanta o despreparo dos profissionais da área para lidar com situações de violência contra a mulher. Quando falamos em currículo oculto da Medicina é disso que estamos falando: uma cultura educacional/profissional de opressão, machismo, classismo, racismo e LGBTfobia. Assustador.”

De fato, o conteúdo é machista e abjeto. Não é só “mimimi” do politicamente correto como alguns apressados – inclusive a empresa que elaborou a cartilha – querem fazer crer. Mas, ao contrário do que pensa Ganzarolli, a apostila não peca apenas por isso. Tão grave quando o machismo é a linguagem e as ilustrações da apostila que associam infantilidade e perversidade – mistura paradoxal cada vez mais comum, que resulta do relativismo moral da esquerda, responsável por abastardar todos os valores.

O que se pode esperar de uma faculdade de medicina que treina seus alunos de residência com uma cartilha infanto-juvenil no conteúdo e na forma? É importante chamar a atenção para isso porque uma apostila médica que promovesse a diversidade sexual e os direitos humanos com linguajar de pichador de muro e imagens infanto-juvenis de travestis “montados” e “empoderados” também seria vulgar e sexista e mereceria a mesma condenação. O mínimo que se pode esperar de qualquer profissional de nível superior – especialmente um médico, que lida diretamente com as fraquezas humanas – é que tenha maturidade.

A apostila em questão parece ter sido elaborada por veteranos de medicina após uma sessão de trote violento, regada a álcool, drogas e abuso sexual das calouras. O Conselho Federal de Medicina tem a obrigação moral e institucional de abrir uma sindicância para identificar seus autores e puni-los rigorosamente, caso sejam médicos, ou processá-los, se não o forem.

Vejam reportagem do UOL sobre o assunto, com algumas ilustrações e textos da apostila médica:

https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/02/16/aluna-reclama-de-conteudo-sexista-em-livro-de-medicina-mas-editora-esnoba.htm

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Paulo Freire: Pedagogia para Tiranos

A propósito da recente morte de Fidel Castro, relembro artigo que publiquei no ano passado na Gazeta do Povo sobre o pedagogo Paulo Freire, um apologista do ditador.

José Maria e Silva

Como se estivesse inaugurando o “feminicídio”, um homem matou brutalmente a ex-mulher em um hospital de Venâncio Aires (RS), justamente quando a vítima aguardava o resultado do exame de corpo de delito devido às agressões do ex-marido. Pouco adianta, entretanto, o assassino ser enquadrado no novo tipo penal em vigor: mesmo condenado por crime hediondo, ele não será um presidiário, mas um “reeducando”, com direito a progressão de pena e visitas íntimas das futuras namoradas que poderá colecionar na cadeia.

Não é exagero afirmar que a transformação de criminosos em “reeducandos” – com graves implicações morais – é um efeito colateral das ideias de Paulo Freire. O autor da “Pedagogia do Oprimido”, espalhada em dezenas de idiomas pelo seu livro homônimo, assassinou Durkheim e divinizou Marx, transformando a educação numa arena política, em que o aluno concreto é sacrificado no altar da revolução. Para Freire e seus discípulos, nunca há responsabilidade individual no conhecimento e o aluno relapso ou delinquente vale até mais do que o aplicado, pois sua conduta é vista como uma contestação legítima ao sistema.

O Estatuto da Criança e do Adolescente – incubadora de criminosos juvenis, que gangrena a sociedade brasileira – é fruto da mentalidade paulo-freiriana. O ideólogo que ajudou a redigir essa lei, o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, abandonou a Faculdade de Medicina ao se apaixonar pela obra de Paulo Freire. Hoje, no sistema penal brasileiro, o preso é visto como o “bom selvagem” de Rousseau, tratado não como criminoso merecedor de punição, mas como “reeducando” – o que transfere a culpa de seus crimes para a sociedade, condenada a se sacrificar por sua “reeducação” e “reinclusão”, como se latrocidas e estupradores não passassem de crianças indisciplinadas.

Amplificada pelo pensamento de Michel Foucault, a Pedagogia do Oprimido transformou-se numa tirania do transgressor. Irônico é que essa pedagogia subversiva, que condena qualquer forma de punição para o aluno delinquente ou o criminoso contumaz, não hesita em defender tiranos, contanto que sejam de esquerda. No livro que o fez mundialmente famoso, Pedagogia do Oprimido, de 1970, publicado originalmente nos Estados Unidos, em inglês, Paulo Freire defende as execuções sumárias dos camponeses cubanos por Che Guevara (louvado como uma espécie de Jesus Cristo) e se inspira na sanguinária e obscurantista Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, que matou 65 milhões de chineses.

Freire diz que o líder revolucionário “há de desconfiar, sempre desconfiar, da ambiguidade dos homens oprimidos” e afirma que “desconfiar dos homens oprimidos não é propriamente desconfiar deles enquanto homens, mas desconfiar do opressor hospedado neles”. Com esse salto ôntico, ele destitui o oprimido de sua humanidade e o transforma em mero hospedeiro do opressor, autorizando o revolucionário a executá-lo em nome da revolução. Tanto que justifica literalmente as execuções sumárias da ditadura cubana: “A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la, seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida”. Como se vê, Paulo Freire pode ser adotado até pelos jihadistas do Estado Islâmico: afinal, eles também acreditam que não estão matando seres humanos, mas meros hospedeiros da opressão ocidental.


(Publicado originalmente na Gazeta do Povo, de Curitiba, em 5 de abril de 2015)